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OPÚSCULO - ALGUM DE FILOSOFIA

 Autor: Agnaldo Tavares Gomes
                                         (2009)



ALGUM DE FILOSOFIA

          “Ele poderia muito bem ter pedido clemência. E poderia ter salvo sua vida se concordasse em deixar Atenas. Mas se tivesse feito isto, não teria sido Sócrates. O ponto é que ele considerava sua própria consciência – e a verdade – mais importante do que sua vida.” (Jostein Gaarder, em O Mundo de Sofia, por João Azenha JR.)

          “O inicio é algo que não se forma, sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um princípio. Esse princípio de nada proveio, pois que se provesse de uma outra coisa não seria princípio.” (Platão, em Fedro, por Alex Marins)

          “No princípio era o logos – o verbo – e o verbo era Deus, de cuja plenitude todos nós recebemos – cheio de graça e de verdade.” (Apóstolo Paulo)

          “Eu sou a verdade” (Cristo)

          Aqui, amigo, culmina toda busca pela verdade!... “Eu sou a verdade”. Esta mesma verdade pela qual Sócrates entregou sua vida, sabendo, mas sem saber dizer, ou melhor, estes ditos indizíveis como nomeia Paulo de Tarso. Sócrates, um orgulhoso, defensor de sua idéia? Não; um cristão antes do Cristo Jesus!... Corrompeu os jovens? Não; os alertou. Ignorou os Deuses? Sim; revelou um único Deus – a verdade absoluta – Sua consciência era reta, talvez se convertesse ali o filosofo no encontro com a verdade suprema. “Conheceis a verdade e a verdade vos libertará”. Libertava-se então de toda busca pela verdade, pois encontrara, e queria tão somente dividi-la com seus semelhantes na alegria de sua alma que voltava ao princípio Creador.

          Em meio a estes jovens um deles não só ouviu, mas escuto a verdade proferida por este filosofo profeta da Verdade. “Esse princípio de nada proveio”. Assim diz o discípulo daquele que tem a vida nas mãos do Cristo. “Quem perder sua vida por minha causa– verdade – tela-a.” O princípio é a verdade!... “tudo o que se forma, forma-se de um princípio”. E é este princípio que nos convida a harmonizar nossas vidas, formas criadas a partir deste princípio. “No princípio era o logos”, e o logos era Cristo – verbo que se fez carne na pessoa de Jesus – O homem cósmico, imortal na sua essência e existência, já era previsto por Platão no suposto dialogo entre Sócrates e Fedro: “Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda eternidade.” Eis a bela descrição do homem integral, lucificado, do Cristo, Jesus.

          Quando nos entregamos de coração limpo a conhecer as verdades através da filosofia e dos conhecimentos bíblicos, encontramos aí semelhante paralelo. Enquanto guiava-se Santo Agustinho pela filosofia platônica, Tomas de Aquino era guiado pela filosofia aristotélica sem jamais perder de vista o ideal cristão. Enquanto este contempla as verdades espirituais, aquele as verdades racionais. Pela razão podemos afirmar que Deus existe! E encontramos essa afirmação claramente na explicação do que é a alma, por Platão, esta mesma alma refere Spinoza como sendo o próprio Deus: “Deus é alma do universo”. Por outro lado, as verdades espirituais só são aceitas pela fé. Assim dizia o mais inteligente dos homens do século XX, o pai da era atômica, Albert Einstein: “O mundo dos fatos não conduz ao mundo dos valores, porque estes vêm de outra região.” Costumo dizer que depois de Einstein ninguém mais chega a tão bela afirmação sobre a incapacidade de o homem conhecer a Deus sem que seja pelo caminho da fé. E fé, é, sobretudo, fidelidade.       

          Filosofando sobre os mistérios de Deus impossível a revelação do homem por meios empíricos ou intuídos cheguei a dois grandes mistérios: o sol e a vida. Um material, e o outro imaterial; seja ele filosofo ou teólogo. Alguém já foi no sol? Não; nenhum ser humano é capaz de ir ao sol, mas o sol vem até nós através dos seus raios... Alguém já creou um ser vivo? Comprova a ciência que é impossível fazer a vida em laboratórios. Jamais um ser vivo nasceu da combinação de água, terra, ar e fogo quando conduzido pela vontade homem, é preciso um componente indispensável para animar um suposto animal 100% criação humana, e este componente é o espírito divino, a essência do creador. “Nenhuma folha cai de uma árvore sem o consentimento de Deus”. Resumindo, o sol é um grande mistério insondável assim como a vida. O sol é pura atividade, a vida também é.



OS CONTRÁRIOS: O FEIO E O BELO

          “O que é divino é belo, sábio e bom” (Platão)

          A figura do diabo é sempre descrita com caracteres de horror, da maneira mais medonha que a imaginação do leitor possa fantasiar. Afinal, cada qual pinta o diabo a seu gosto! Os santos são sempre as mais belas feições humanas: condecoradas com as cores mais vivas, revestidos com os tecidos mais finos; dificilmente encontramos um santo negro, são na grade maioria rostos porcelanizados, se cores claras. Será que no vaticano não há cotas para negros a espera de serem canonizados? Quais os mais belos santos, os de Picasso ou os santos de Da Vince? Ou será que o amigo tem outro com mais beleza artística nalgum cômodo secreto de sua casa?...

          Eis a descrição de um dos mais belos homens que a humanidade pode conhecer: “era baixo e gordo, tinha os olhos que pareciam querer saltar das órbitas e o nariz arrebitado. Mas seu interior era “absolutamente maravilhoso”, conforme diziam. E mais, diziam que se poderiam vasculhar o presente e o passado e não se encontraria ninguém comparável a ele”. “Mas seu interior era “absolutamente maravilhoso”. Eis onde os “sábios” que só conhecem a superfície do amar se enganam!... 

          Mas não só Sócrates foi capaz de cativar com tanta beleza seus contempladores, outro, destarte, fora Paulo de Tarso, o apóstolos, maior bandeirante do evangelho, esse um moço franzino, doente, de mãos calejadas pelo tear, pés apanhados pelas longas caminhadas diária em desertos pedregosos, sob o calor de um sol vibrante... No entanto, não houve na face da terra criatura mais cativante em levar aos seus semelhantes a “Boa Nova” do Cristo; tão corajoso homem a proferia no Areópago, em Atenas, a ressurreição do Nazareno. 

          Podemos escrever longas páginas relatando os feitos heróicos destes nobres e belos homens da nossa humanidade. O gago Moisés pastoreio de um rebanho imenso de homens, mulheres e crianças libertas do domínio egípcio;                       Mais ao nosso tempo, o “pequeno grande homem” embaixador brasileiro, qual levou a Haia a perfeita afirmativa de que todos os países são iguais em direitos humanos. Rui Barbosa, aclamado como a Águia de Haia!

          Para finalizar eis a descrição do mais belo dos homens, Jesus, o Cristo: “Pois foi crescendo como renovo perante ele, e como raiz que sai duma terra seca; não tinha formosura nem beleza; e quando olhávamos para ele, nenhuma beleza víamos, para que o desejássemos.” (Isaías, 53)

A verdadeira beleza não se dilui, não evapora e nem decompõe... Sua substância é impalpável, infinita! Só vista aos olhos do coração.



LIVRE-ARBÍTRIO: MÁS E BOAS INFLUÊNCIAS

“O mestre chega quando o discípulo está preparado” (filosofia milenar oriental)

          Existem dois caminhos a ser escolhido na formação do individuo: um leva ao abismo, o outro ao nirvana. As más influências conduzem, por certo, às trevas, enquanto as boas influências à luz. Existem clássicos exemplos de influências: Sócrates influenciou Platão; Edgar Poe influenciou Baudelaire; Voltaire influenciou Giosuè Carducci; Byron influenciou Álvares de Azevedo, e por aí vai...



QUE HÁ DEPOIS DA MORTE?

          Que há depois da morte? Pergunta imbecil a um vivente. Se tiveres curiosidade, pergunta a um morto que há depois da morte?... Cena mais cômica... Depois da morte, absolutamente nada. Quem morre apenas morre, nada mais. Se insistir em saber que há depois da morte, primeiro pergunte o que é a morte? Então terás a resposta aos teus anseios... Morrer é nada mais que deixar a existência. Quem deixa a existência, deixa de viver. Agora, queres tu morrer? Calma, há ainda um ponto relevante neste dilema universal: a vida! Que há depois da vida, perguntaste? Então... não perdas teu tempo em perguntar sobre a morte. Pergunte sobre a vida. Viva em harmonia a caminho da vida após a vida... Jamais queira saber da morte depois da morte.



A PAIXÃO

          Como poderemos explicar?... Vejamos: “Os homens, belo jovem a quem se dirige o meu discurso, chamam tudo isso de amor mas, ao ouvir como os deuses o chamam, talvez te rias, devido a tua pouca idade.” A palavra amor aqui está no sentido de Eros (libido), e é sob esta sublimação do amor que Platão discorre a tragicidade do amado e o amante... O amor erótico, se assim podemos chamar. É este amor que acarreta ciúmes exagerados. Visto que o amor espiritual, na sua real condição, derrama em abundância, prefere a união que a unidade. A paixão por Cristo excede a barreira do egoísmo, abandona a erótica do corpo, que é ser escravo da unidade finita, e uni a mística do espírito, que é liberdade universal, infinita. Quando o homem ou a mulher se encontram neste prisma da erótica do corpo faz o curto caminho da existência humana, pela qual se dá todo seu potencial, sua vitalidade. Enquanto potencializa sua vida na satisfação do gozo da carne neutraliza o espírito, sufocando-o, impedindo que o nasça a uma nascença sem termo. Por isso, faz-se necessário ao homem e a mulher direcionar sua vitalidade ao espírito. Paulo em suas epístolas aos corintos deixa bem claro a necessidade da oração, ou seja, da harmonia com Deus.   

          “Nascer para o espírito”, é este o mais belo convite e o mais ignorado aos que preservam, a todo custo, a nascença do corpo. Nascer para o espírito não quer dizer abandonar o corpo a mercê do tempo, ao descuido higiênico, a doenças como faziam os Cínicos mais fanáticos, mas viver em harmonia com Deus, contemplar a verdade com a mais pura certeza de que a felicidade está presente nas coisas impalpáveis, intangíveis.

          Outro dia ouvi contar sobre um pastor que deixou sua esposa e integrou-se a uma vida com Cristo, tão só, na justificativa de que não poderia servir a dois deuses. Com um pouco de certeza podemos afirmar que ele tenha escutado o eco das epístolas de Paulo aos coríntios...



INTUIÇÃO

          A intuição quando tomada por uma verdade suprema nos levam a caminhos onde abismamos com a pura realidade das coisas... “Qual a metafísica das coisas?” Pergunta o filósofo poeta heterônimo da pessoa de Pessoa. Platão com sua sábia sabedoria de explicar a alma diria: “A metafísica das coisas é a própria alma”. Outro poeta, agora um brasileiro gaucho de alegrete: “A alma é essa coisas que nos perguntam se existe alma”. A alma, por certo, é algo mesmo enigmático!

          A psicanálise estuda a alma humana, tendo Freud por pai. E foi num estudo aprofundado que Freud caracterizou os traumas da idade adulta do homem reflexo de sua infância. Até aí tudo bem, mas o que intrigam muitos estudiosos da alma humana é que na conclusão de sua ciência Freud afirma que todos esses traumas estão relacionados com a libido, ou seja, o impulso sexual; afirmando assim que uma criança já tem esse potencial inato em si deste a formação, tomando por base sua própria infância. Aqui devo descrever a crítica de Rohden a teoria freudiana: “Freud e sua escola fizeram um mal imenso à humanidade, fazendo crer que a força básica de toda e qualquer atividade humana seja a libido, o pansexualismo.” Noutro artigo explica a potencialidade sexual inexistente na infância: “Enquanto o individuo é infantil, ainda incompleto e em ascensão inicial, não desperta nele o instinto sexual, porque não há ainda necessidade desse impulso, nem o organismo infantil suportaria indene a transmissão de uma parte de sua vitalidade.”

          Finita ou infinita é a alma? Platão afirma que a alma é infinita, movida por si mesma, e mesmo as más almas são “recicláveis”, umas passam por sentença, outras por castigos abaixo da terra. Eu, com minha filosofia ainda torta penso: se o corpo é invólucro da alma, como atesta, a alma é o plasma do espírito; então o espírito é o núcleo, e o núcleo é o sopro de Deus dentro de cada alma humana – isto é certo –.  Quando o indivíduo morre, morre o corpo que é inanimado pela alma – aqui temos a alma platônica, movida por si mesma –. Mas a alma pode ser finita e infinita; finita se não harmonizada com o Creador. Vejamos, se a alma é mesmo uma “idéia”, não há porque preservar uma má idéia. Então, as almas boas são infinitas por sua essência de bondade, enquanto as más almas finitas por excesso de maldade.

          Concluindo, o fim da alma que vive em desarmonia com o Creador: ela abandona o corpo, esta e a primeira morte; na segunda morte, que é a morte definitiva, o espírito de Deus abandona a alma, e esta pudesse. Ao contrário é a boa alma, aquela harmonizada com Deus, esta é preservada o espírito, pois sólida é o plasmo que o envolve; e o invólucro, que é o corpo material, torna-se luz, pois luz é a alma que o preenche. Aqui está o exemplo de homem verdadeiramente Gandhi, homem santo, Crístico. A bondade quando espontânea torna o homem luz de corpo e alma.

          O homem bom é bom não por necessidade, mas por excelência.
       


GUARDIÃ POR EXCELÊNCIA

“A mulher deve deixar de se considerar o objeto da concupiscência do homem. O remédio está em suas mãos mais que nas mãos do homem” (Mahatma Gandhi)

         Nas palavras do Mahatma, encontramos o exemplo de mulher verdadeiramente feminina, essa “guardiã por excelência de tudo que é mais sagrado”. Ela, só ela “tem em suas mãos o remédio a concupiscência do homem”. Gandhi afirma, não de forma teórica, mas prática. Se não fosse a concordância de sua esposa em abnegar junto a ele a relação sexual para melhor compreensão de sua tarefa espiritual, não seria ele o Mahatma libertador da Índia, usando apenas como arma a não-violência como resistência pacifica. Não estou a convidar o amigo a fazer o mesmo que Gandhi, abandonar o sexo, até porque isso é tarefa de poucos homens, poucos conseguem uma completa nascença para o espírito. Nem mesmo o mestre Jesus Cristo ordenou aos seus discípulos que fizessem voto de castidade, porém essa necessidade nasce naturalmente, de acordo com o ajuntamento do homem ao que é exclusivamente divino, quando este descobre o que de fato é “nascer para o espírito”. Gandhi assimilou esta mensagem do Nazareno mais que muitos que se dizem cristãos... Não foi uma tarefa fácil, afirma ele:

          “Castidade não significa crescer em estufa. Não se pode defender a castidade cercando-a com o muro da purdah. Deve crescer interiormente e, para valer alguma coisa, deve ser capaz de resistir a qualquer tentação não procurada”.

          No entanto, como sabemos a vida do Mahatma Gandhi é uma exceção. Não podemos esquecer-nos do papel importante que exercera sua esposa em sua transformação, dando-lhe apoio moral em tão extrema decisão... Era ele um homem excessivamente apegado aos prazeres do sexo, confessa envergonhado que nem mesmo na hora em que seu pai estava à morrer pode o velar, pois o desejo sexual muito intenso o arrastara ao quarto da esposa...

          “É uma mancha que nunca pude apagar ou esquecer, pois sempre pensava que a minha devoção por meus pais fossem sem limites. Sempre me considerei um marido carregado de desejo carnal, embora fiel. Foi-me preciso muito tempo para libertar-me das cadeias do desejo, e antes de vencê-las, tive de passar por inúmeras provas”.

          Depois de algumas tentativas fracassadas, só então aos quarenta anos pode Gandhi vencer, definitivamente, os desejos sexuais realizando em si “a misteriosa alquimia da transformação do seu Eros em espiritualidade”.

          Assim são os grandes místicos, como descreve Huberto Rohden em seu livro Setas Para o Infinito:

          “Os grandes místicos são, fundamentalmente, os grandes eróticos, os que conseguiram realizar a misteriosa alquimia da transformação do seu Eros (libido) em espiritualidade, não pela compulsão, mas sim pela compreensão”.



O EXÍLIO DE UMA CAVERNA

          O que nos levam a querer em algum instante da vida o exílio de uma caverna?

          É chegado um momento na vida em que deparamos com essa necessidade de uma pausa para apurar todo o conhecimento que adquirimos ao longo do tempo já vivido. E esta pausa tem de ser silenciosa, mesmo que os ruídos do mundo externo sejam válidos a nossa existência material. E agente precisa encontrar a caverna interna, e aí fazer morada por algum tempo...

          Sentimo-nos águia desgastada... Temos a visão de um futuro promissor... Novas conquistas, mais sólidas... E percebemos que é preciso fazer o percurso da águia – regenerar – para alcançarmos vida longa e sabedoria.

          Não é nada fácil – não mesmo –, mas restam-nos apenas duas escolhas lógicas: morrer ou sofrer as dores regenerativas: desfazer de nosso bico, de nossas garras, nossas asas... Mas, será necessário a atingir a vértice de nossa montanha...

          Precisamos de uma caverna onde nenhum outro ser perturbe nosso silêncio regenerativo... Uma caverna onde a luz penetre manhã e noite... Onde possamos encontrar com nós mesmos, auscultar o silencia da sabedoria...

          Sabemos de uma caverna ideal a nossa mais importante aventura... A distância que nos impõe a ela é o querer. E tem de ser um querer não forçoso, mas espontâneo... Esta caverna fica dentro de nós mesmos.



O PRISMA DO SILÊNCIO

          Outro dia, conversando com uma amiga, falava de minha urgência de uma caverna regenerativa, ela me falou sobre o silêncio: “dizem que o silêncio é um dos estados mais ricos de expressão... Como a luz branca que reúne todas as cores, o silêncio reúne todos os sentimentos”.

          É sob o prisma do silêncio que as águias se renovam... E é sob este mesmo prisma que devemos buscar a renovação. Nossa disciplina será o silêncio construtivo da caverna dentro de nós – basta que encontremo-nos esta caverna.

          Eu mesmo me pergunto: como adquirir esse silêncio se tenho meus afazeres diários em meio ao moderno mundo ruidoso?... Não seria melhor me retirar, em vez de ir para a caverna dentro de mim, ir a uma caverna no meio das montanhas chilenas?... Ou as volta dos paredões de um mosteiro isolado do mundo?... Respondo-me que não.

          De nada nos adianta o silêncio para fora da gente se dentro do nosso ser há um ruidoso descontentamento... Também o silêncio da nossa caverna interior será mais construtivo em batalha com nossos desejos de querer o ruído externo tendo ele a visão da realidade.

          Nossas pretensões não são de isolar do mundo nosso ser, mas isolar o mundo dentro de nós...



O LIVRO DA FELICIDADE

          Não há técnicas para adquirir sabedoria, não trazemos com a gente ao nascer, o manual de como viver uma vida feliz, e nenhum livro de formatação da mente quando esta estiver paranoica. Sim, temos de ler, ouvir e respeitar os estudos sobre o comportamento da mente humana, mas não devemos deixar sermos apanhados pela beleza da escrita, a poética das palavras, visto que os piores homens que a humanidade tem conhecimento não deixam de ser àqueles cuja eram também “mestres” na retórica.

          Não há formulas mágicas, técnicas, teorias, ou qualquer outra solução que leve ao homem a encontrar a sua felicidade interna... Sim, este escritor é mestrado por esta e aquela Universidade e estudou durante 10, 15, 20, 50 anos... Pois bem, Einstein estudou a vida inteira, e seus estudos não se restringe a matemáticos e físicos, mas também a si mesmo, visto que desenvolveu em si a capacidade intuitiva, fruto de uma alma sapiencial. Não esquecendo que matemática e física estão interligadas a nossa existência metafísica. Quem não se recorda da multiplicação dos pães que fez o Mestre no deserto junto a seus discípulos, em outra ocasião este mesmo Mestre andou por sobre as águas, e outrora, bem antes, transformou água em vinho.

          Não se encontra de modo algum o livro da felicidade na estante de uma livraria – seja virtual ou não. E não está trancado na gaveta de nenhum escritor misterioso, nem na mais treinada mente humana. O livro da felicidade não é vendido nem segregado, não é doado e nem roubado. Este livro é conquistado pela única fonte atuante e real dentro de cada um de nós – somos todos capacitados a beber nela goles de sabedoria.



FELICIDADE E ALEGRIA

          Para melhor entendimento e para não cair em contradição, devo distinguir, ou, ao menos tentar, mais precisamente os conceitos de felicidade e alegria que aqui discorro.

          A felicidade que refiro ao longo de minha modesta escrita, não é fruto de esforços físicos e intelectuais, não é uma conquista palpável, mas uma graça que se recebe pelos sentimentos mais nobres... Então posso dizer dela alegria.

          A felicidade – palpável – em sua plenitude é impossível no plano de vida em que fazemos parte, mas é possível a alegria constante... – esta que se diz entusiasmo.

          Não há qualquer tipo de magia que nos conduzam a nossa felicidade interna – a alegria. Mas há de ser conquistada por nosso embate ao caos interno que por horas se forma dentro de nosso ser... E as armas que usamos são as mais simples e as mais relevantes.

          Faz-se necessário uma compreensão do nosso modo de vida, das nossas ações em sociedade, com a gente mesmo. Aí é que entra a busca pela caverna silenciosa dentro de nós, onde podemos revitalizar nosso ser...

          Não é possível conquistar a felicidade em sua plenitude, se assim fosse tornaria enjoativa, monótona. Os contrários da vida é que anima nossa existência, e a felicidade só existe porque existe seu contrário – infelicidade. Felicidade na totalidade é utópica. Não há em nossa existência um ser sequer que goze da felicidade sem que por horas experimente seu contrário. Depois de degustar o doce vem sempre o gosto amargo na boca quando perde o sabor... – é o desejo de mais doce.

          Felicidade em sua plenitude é utopia, instável é alegria, e alegria é entusiasmo.



A MENTE HUMANA

          Como funciona nossa capacidade pensante? Como surgem nossos pensamentos? Sejam ideias novas ou recordações de nossa infância, de nossa juventude... Paradoxal!...

          Cientificamente se explica os fatos externos de nossa natureza, mas é impossível por meios empíricos responder os mistérios de nossa mente.

          A ciência não é exata quando se refere aos mistérios da alma, é mutável, corrigível, sobretudo materialista – no sentido palpável. Não podem trazer certeza as coisas que são intangíveis. A nossa mente não é o cérebro, a ciência busca desvendar no cérebro os códigos mentais... Mas a mente é complexa de mais e impenetrável às pinças e os raios lasers.

           Os doutores em psíquico nos trazem técnicas para melhorar a capacidade mental, fazer uma “faxina” em nossa mente e pôr para fora todos os pensamentos negativos, adquiridos por decênios... Como se todo ser fosse igual. Mas não, cada um é distinto em sua existência complexa na vida. Cada qual contempla o mundo de sua própria janela.

          Não se pode tratar a todos com semelhante “manual”. Não existe teoria cientifica e nem psíquica que explique a mente humana, que a renove. Há sim técnicas paliativas, mas não traz ao “paciente” uma solidada mudança que perdure por toda sua existência...



A VONTADE DE MUDANÇAS

          A urgência de um refúgio é latente no ser humano. Diante da problemática da vida queremos, por muitas vezes, “deixar tudo”, “sumir”, buscar “novo rumo”... E na maior das vezes o rumo buscado é sempre o mesmo, direciona as mesmas problemáticas. Porque o não aceitar ou desconhecimento de que “o problema está em si mesmo” nos faz eternos buscadores de ilusões... O não aceitar e o desconhecer são frutos do orgulho, e esse orgulho é preciso ser combatido no dialogo com a gente mesmo. Nós sabemos exatamente onde mais nos aperta o calçado.

          A inquietude do ser humano tem limites, e o limite é a racionalidade de sua alma. Alguns chegam a ela quando não há mais forças no seu lábio para maldizer a vida, outros quando percebem suas fragilidades... E como um menino que não alcançou o doce no alto da prateleira, que depois de espernear e gritar muito silenciou... Nasce a compreensão de que seus braços são curtos, seus pés poucos flexíveis... Resta então resignar.

          E esta resignação não é “esperar que as coisas aconteçam”, mas ir ao encontro delas confiante, ganhar elasticidade aos braços e pernas... Sempre movendo para frente logo mais chegaremos ao cume da nossa montanha à escalar...

          Se não chegarmos – isto é uma probabilidade, e ela é real – tudo bem, nossa busca é valida mesmo assim, lutamos como bons atletas, e nossa luta é parte de importância da meta proposta. Há bons exemplos em nossa história, muitos se recordam da atleta maratonista que ao extremo de sua força física terminou a maratona, mesmo que na trigésima posição, mas não desistiu de sua meta enquanto havia uma fagulha de força em seu corpo desgastado pelo longo percurso... Ela venceu sua meta, que era chegar, e não lhe importava mais àquela altura ser a primeira colocada na maratona, mas chegar. E ela chagou.



A CAPACIDADE INTUITIVA

          A intuição não nos vem do puro acaso, não é uma dádiva aos “preguiçosos” do pensar, mas aos corajosos, aos que madrugam aos pensamentos... E pensar não é uma coisa restrita aos diplomados filósofos, mas àqueles que têm um cérebro funcional.

          Todos nós somos pensadores, temos nossas ideias “loucas” sobre as coisas..., nossas teses, teorias... Só que nem todos têm a coragem de formular seus pensamentos, é como se estivessem no tempo da inquisição. Mas é. Há uma “inquisição” imposta pelos produtos tecnológicos já pensados. E o pensamento crítico, construtivo de uma grande parcela de nós é posto às fogueiras da “inquisição” tecnológica.

          Muitas pessoas têm medo de expor seus pensamentos, talvez por se acharem ridículos ou receio de serem taxados assim, e até são crônicos em dizer: “Platão diz...” Sim, Platão diz. E você? Não tem opinião própria? Seu pensar é Platão? A massa cefálica que preenche seu crânio é a mesma que Platão?

          Não somos inferiores no pensar as coisas que este ou àquele filosofo – antigo ou moderno – somos continuidade da espécie dos animais pensante... E podemos ser até superior aos antigos filósofos; muitos conceitos de muitos deles já estão ultrapassados. Somos os pensadores de nossa geração, os grandes filósofos do presente. Quem mais para nos dizer sobre esta experiência dinâmica que um dos maiores pensadores da raça pensante: “Penso noventa e nove vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho num profundo silêncio – e eis que a verdade me é revelada.” (Albert Einstein)

          Pensar é a chave da intuição.





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